sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A INTANGÍVEL BELEZA DO SOM


Embora saiba, de antemão, que não vou conseguir, tentarei contar aqui o que senti há algumas semanas, quando ouvi pela primeira vez a Sinfonia nº 3, Opus 36, do polonês Henryk Górecki. Fui arrebatado pela sequência de sons mais impressionantemente bela que jamais havia ouvido. Senti dores pelo corpo. Um nó na garganta. Um aperto no peito. No estômago, um certo ardor. Em algumas passagens, queria que a música se materializasse, para poder abraçá-la. Mas, como tudo na vida, ela se esvaía. A sinfonia, de três movimentos, foi composta em 1976, no auge do comunismo na Polônia. Górecki, talvez pensando na tirania daqueles dias, lançou mão de outro momento histórico, para criticar ambos. De um certo viés, é uma obra sobre o holocausto. O segundo movimento é o mais famoso, tem vários vídeos no You Tube. Na parte cantada, por uma voz soprano, os versos são inspirados nos escritos deixados por uma jovem prisioneira nas paredes de sua cela, em algum campo de concentração polonês. É triste e lindo, com o perdão do pleonasmo. Mas, para mim, não há nada igual ao primeiro movimento, de 22 minutos. O tom grave dos primeiros acordes remetem a um paradoxo: é o nascimento e, ao mesmo tempo, a morte. Há um minimalismo harmônico que transforma esse primeiro movimento num mantra. Um "loop" de dor e sofrimento, um vai e vem, uma alternância de delírio e lucidez, que lembra a agonia dos últimos momentos de vida. Vejo alguém puxando pelo ar rarefeito, indo e voltando, boca aberta, olhos arregalados, rosto crispado, a própria face do medo. Uma batalha, a derradeira, que dura exatos 22 minutos. Algo que penetra na gente e fica impregnado para sempre. Nunca mais essa sensação sairá de mim, tenho certeza. E, ao mesmo tempo, quase não consigo compreendê-la. Tento tocá-la e não consigo, é inatingível. A intangível beleza do som. E a única realidade possível, sem filtros, a morte. Tenho escutado bastante essa sinfonia ultimamente, também conhecida por "Symphony of Sorrowful Songs". Ela sempre me causa impacto, a cada audição - mas nunca como daquela primeira vez. E tudo isso para dizer o que, na verdade, podia dizer em uma linha: ao ouvi-la, eu pensava o tempo todo em meu pai.

5 comentários:

Paulo Sales disse...

Paulão,
Li seu comentário e já fui atrás da sinfonia para baixar (o que estou fazendo neste exato momento). Mas nem preciso ouvi-la para dizer que seu texto, límpido e de uma franqueza comovente, já valeu a noite. E que, como você, eu estou aqui, tomando um vinho e ouvindo jazz, pensando o tempo todo em meu pai e em como gostaria que ele estivesse aqui.Continue escrevendo.
Grande abraço, meu caro. E depois te falo sobre o que achei da sinfonia.

Anônimo disse...

E ai Paulinho

Seu Alcides ainda é o cara !

Lembro perfeitamente da gente indo para escola no Opala Bege (na volta era a Brasília Roxa da minha mãe), o rádio tocando a musiquinha da Jovem Pam, um adesivo do SPFC no painel do carro, etc. O melhor de tudo era quando a gente cruzava com algum barbeiro no trânsito e o Alcides esbravejava: "Será o Benedito ?!?!"

Abrassunda

Mané
obs: teu gosto musical mudou bastante !

Paulo Cunha disse...

Paulão, meu caro! Precisamos urgentemente tomar umas! Abração!

Mané, meu velho! Falou tudo! Quanto ao gosto musical, não mudou, não. Só expandiu um pouco. Abraço!

Lunático Teresinense disse...

Irmãos pois eu simplesmente compungi-me em pranto ao ouvi-la pela primeira vez...ajudou-me a extravazar algo que não sei o que era.

É delirante ver aquela soprano.

Mas ei, alguém sabe onde consigo ouvi-la por completo, pois lá no youtube só tem fragmentos.

Se alguém souber por favor avise.
meu email italomiau@hotmail.com

Bruno Almeida de Oliveira disse...

Essa Sinfonia é incrível! No primeiro movimento, a ave maria em polaco. No Segundo, a frase (dirigida a sua mãe), escrita na parede da cela pela jovem (Que foi executada) e no Terceiro, uma cantiga popular/folclórica polonesa (Que é cantada de mãe pra filho). Gorecki, dedicou a música a sua mãe, que faleceu quando ainda era pequeno.